20.7.11

A menina - poesia.




Dizem que surgiu do nada, igualzinho a chuva de verão. Quem é que ia prever uma coisa dessas? Dizem que apareceu ainda criança de colo, no meio do dia. Pisca um olho, a praia deserta. Pisca o outro, um bebê rastejando na areia, brincando com conchinhas. Dizem que foi criada por uma velhinha de cabelos grisalhos e longos. Dizem também que foi adotada por um casal que tinha doze filhos. Outros falam ainda que cresceu sozinha, na praia. Eu não sei. Mas o que importa é que a menina cresceu... Dizem que não saía do mar. Nadava de fazer inveja ao peixe mais nadador. Mergulhava tão fundo sem prender a respiração. Disseram logo que era filha do mar. Dizem que também corria depressa. Ninguém pegava a menina na carreira. Os cabelos loirinhos esfarelando-se no ar, apenas um vultinho corredor lá longe. Disseram então que era filha do vento. Dizem que era capaz de transformar até o coração mais duro numa maria-mole. Dizem que encantava a toda gente. A menina era mais doce do que sorvete. Dizem que tinha os olhos azuis que nem céu de janeiro. E a pele assim bronzeada, de tanto tomar sol. Juntava isso às faces rosadinhas e dá-lhe beleza de fazer inveja às meninas bonitas da capital. Dizem também que olho azul não tinha, não. Muito menos cabelo loiro, veja só! Muitos acham que a menina era mesmo bem morena; ou talvez ruiva, me fugiu à memória. Dizem que quase não falava. Vivia num significativo silêncio, tímida, delicada. Dizem outras línguas que a menina era muito tagarela, não parava de falar. Eu não sei. O certo é que não tinham certeza mesmo de quase nada; muito pouco de fato se sabia sobre aquela menina. Mas em uma coisa todo mundo concordava: a menina era a própria poesia.

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